Escola de Ciência Política


Europa. Os limites geográficos
Setembro 27, 2007, 12:40 am
Filed under: Geografia histórico-política
Não há, geograficamente falando, limites consensualizados para a Europa. Com efeito, os próprios geógrafos parecem não subscrever a célebre diatribe de Bismarck, para quem a geografia é a única verdade da Europa. O único consenso que, neste domínio, consegue atingir-se é o da consideração da Europa como uma península, como uma presqu’île, que, vinda da Ásia, se perde no mar, de maneira que a terra europeia se assume como o mais marítimo e o menos continental, de todas aquelas grandes ilhas do mundo a que se dá o nome de continente. E o consenso científico dos geógrafos parece vir de longe.

Foto picada da Wikipédia

Já ém 1725, Noblot qualificava a Europa como uma grande península, coisa que será posteriormente repetida. Assim, em 1816, Brun utiliza a expressão prolongamento da Ásia. Blanchard, em 1936, a refere como península do vasto continente asiático. Coincidem aliás com aquele golpe de asa poético de Paul Valéry que, na sua La Crise de l’Esprit, de 1919, salientava que a Europa não passaria de um petit cap du continent asiatique, de uma étroite presqu’île que ne figure sur le globe que comme appendice de l’Asie. Essa parte ocidental, acidentada, da península asiática, a que chamamos Europa.

Contrariando esta perspectiva, têm vindo alguns autores recentes a decretar fronteiras para o Leste Europeu. É o caso de Otto Molden que afasta da Europa a Ucrânia, a Bielorrúsia e Rússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos e de Krzystof Pomian que fala num limite que passa a leste da Finlândia, dos países bálticos e da Polónia, que atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas, a Sérvia de um lado, a Croácia de outro, isto é, que remete para o outro lado, a igreja ortodoxa. Otto Molden, em Die europãische Nation. Die neue Supermacht vom Atlantik bis zur Ukraine, Munique, Herbig, 1990, estabelece o limite leste da Europa numa linha que começa no Lago Peipous e passa pelos rios Pripet e pelo Dniester, abandonando os Urales, isto é, afasta da Europa, não só a Rússia, como também a Ucrânia e a Bielorússia, mas inclui a Polónia e os países bálticos. Isto é, reconhece a Rússia como uma ásia com apêndice europeu.

Krzystof Pomian, em L’Europe et ses Nations, Paris, Gallimard, 1990, diz que o limite oriental da Europa passa a Leste da Finlândia, dos países bálticos, da Polónia, atravessa a Ucrânia, contorna a Hungria e corta a Jugoslávia em duas: a Sérvia de um lado, a Croácia do outro. A significação desta fronteira não é somente religiosa, de um lado a igreja latina , do outro a igreja grega. Porque os dois espaços que ela delimita têm histórias diferentes, o que permite compreender os dramas que acontecem hoje em certo número de países.

Qualquer um deles toma uma atitude paralela àqueles ocidentalistas que como Gonzague de Reynold, nos anos trinta, passou a considerar que depois da revolução russa, a fronteira da Europa recuou de novo para o centro desta; a Rússia tornou-se asiátrica, mesmo mais do que asiática, ela é a anti-Europa.

Contudo, tanto a Comissão Europeia como o próprio Conselho da Europa, rejeitando as fórmula simples, têm preferido adoptar uma definição aberta da Europa. Em 1992, num documento sob o título A Europa e o desafio do alargamento, a Comissão vem considerar que a noção de Europa associa elementos geográficos, históricos e culturais que, todos, contribuem para forjar a identidade europeia, acrescentando que a experiência comum, ligada à proximidade, o fundo comum de ideias e de valores e a interdependência histórica não podem resumir-se numa fórmula simples e o respectivo conteúdo é susceptível de mudar au gré das sucessivas gerações. Conclui, assim, que não é possível nem pertinente fixar na hora actual as fronteiras da União europeia, cujos limites serão traçados num decurso de um período à venir de vários anos.

Por seu lado, a assembleia parlamentar do Conselho da Europa, em 22 de Abril de 1992, quando abordou a integração de anteriores territórios da URSS, estabeleceu uma hierarquia entre eles:

– num primeiro grupo, incluiu os incontestavelmente europeus: as repúblicas bálticas, a Bielorrússia, a Moldava, a Rússia e a Ucrânia;

– num segundo grupo, constituído pelos Estados do Cáucaso, como a Arménia, o Azerbeijão e a Geórgia, já fala que o carácter europeu dos mesmo é mais duvidoso, para não ter dúvidas em considerar que o Casaquistão, a Quirguízia, o Tadjiquistão, o Turquemenistão e o Usbequistão, têm um carácter europeu dificilmente aceitável.

Retirado de Respublica, JAM

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