Escola de Ciência Política


Mas que dias, estes 31’s de Janeiro
Janeiro 31, 2007, 2:01 pm
Filed under: Nos Horizontes da Academia
Levantam-se espíritos sobressaltados nestes dias. Mesmo daqueles de quem esperamos alguma responsabilidade, institucional ou não, apenas continuamos a observar, pelo menos em alguns, que persistem complexos de esquerda, causados por antagonismos de direita igualmente xenófoba e não menos maquiavélica. Os devoradores de filhos continuam a encontrar nas peripécias alheias o melhor bode expiatório para os erro que nunca conseguem assumir, tão cobardes são os que andam à sombra das virtudes que, apenas muito dificilmente, poderão alcançar.


Num dia de mais uma aula de Ciência Política, que poderia tornar-se profícua pela ensinamento, devidamente programado na responsabilidade ministerial, do tipo e origem do nosso sistema de governo, torna-se evidente o descalabro de algumas pseudo-responsabilidades, organicamente desorganizadas, que aparentemente coordenam a supervisão pedagógica, tão preocupadas que estão com o linchamento pessoal e profissional das adversidades que criaram, tudo na sombra das tais longínquas virtudes …


Não digo mais, pois a disciplina burocrática continua a fazer justiça por cima, naquele tal tambor de peles humanas que se negam ao conformismo hipócrita dos situacionistas do ditirambo, esses pseudo-repúblicos que preferem beijar-mão a homens que gostariam de ser rei, com orquestras de que não têm capacidade para maestrar, …

Deixo-me, neste espírito também evocador, com mais uma excelente bicada que constará nos anais da academia blogueira, de meu mui citado mestre JAM. Ao jeito de um complemento, se meus alunos assim também o quiserem, que não consegui transmitir na aula de hoje, que apenas tratou da sede formal do Poder. Assim o queiram. Mas, para isso, é preciso ler, para só depois se poder perceber e, com isso, ficar a saber o que se deve aprender:

Conservadores, reaccionários, contra-revolucionários e o 31 de Janeiro de 1891, por um republicano monárquico, sem rei nem república…


Ontem andei por aí em certas bocas mediáticas, desde um comentário que fiz à Lusa, a uma breve entrevista que dei à nova RCP, por sugestão do meu caro irmão-inimigo, José Luís Saldanha Sanches, sobre o que é ser conservador sem medo das mudanças. Nesta última, repeti o que aqui tenho dito e redito: que há uma diferença fundamental entre os situacionistas, os que querem conservar o que está, e os que querem conservar o que deve-ser, estabelecendo a necessária fronteira que separa um conservador de um reaccionário, ou daqueles contra-revolucionários que querem fazer uma revolução em sentido contrário, incluindo a revolução nacional.

Assumindo-me como um liberal à antiga, bem camponês, pouco capitaleiro, e invocando o conservadorismo de Burke, que não era tory, ou de Churchill, que rebentou com o totalitarismo de Hitler, lá invoquei que o homem ocidental é essencialmente do contra (Nós, ocidentais, o que primeiramente somos é anti. Depois é que resolvemos o que havemos de ser, Unamuno) e que o mal do nosso perene situacionismo está num sistema educativo que anda sempre a reboque dos sucessivos politicamente correctos e das consequentes modas que passam de moda, não cultivando o modelo proposto por Dewey para a pesquisa da criatividade pessoal.


Não tive tempo para dizer que subscrevo o grande pedagogo, para quem os valores são tão instáveis como as formas das nuvens…As coisas que os possuem estão expostas a todos os acasos da existência. Não apenas os chamados valores de facto, os bens imediatamente desejados, como os próprios valores normativos, dado que também estes não podem ter pretensão meta-histórica, pois todo o sistema ético é relativo ao meio em que se formou e tornou funcional. Porque todo o meio é um fim e todo o fim é um meio, dado que o fim alcançado é sempre um meio para outros fins.

Porque a utopia normalmente gera o cepticismo e o fanatismo e importa reagir contra a sociedade planeada (planned society) que requer desígnios finais impostos de cima e que, portanto, se baseiam na força, física e psicológica para que nos conformemos a eles. Assim, defende a continuous planning society, que significa libertar a inteligência, mediante a forma mais vasta do intercâmbio comunicativo.

Lamentei que, entre os grandes portugueses, a ditadura dos perguntadores nos leve a ter que escolher entre Salazar, um déspota que foi, e Cunhal, um déspota que não deixámos que fosse, dando a imagem da nossa Avenida da Liberdade que, começando, e bem, nos Restauradores, é encimada pela protecção de um déspota (Pombal).

Disse que o pior dos maus conservadores em Portugal era o Estado-aparelho de poder, onde passámos do conceito de rei absoluto para o conceito de povo-absoluto, não desenvolvendo aquelas sementes de consensualismo que, na pós-revolução, foram assumidas pelo cartismo que a si mesmo se qualificou como “conservador”.


Não disse que deveríamos ter desenvolvido as sementes de 1640 ou das revoluções inglesa e norte-americana, que foram revoluções evitadas, porque nos esquecemos sempre que as revoluções são sempre frustradas na pós-revolução, onde o que se pretendeu abolir com a violência jacobina e deitar fora pela janela acaba por entrar pelo sótão dos fantasmas de direita e dos preconceitos de esquerda.

Conservadores do que está não são os portugueses à solta que, quando libertos das teias capitaleiras e castíferas, souberam dar novos mundos ao mundo e geraram esta nossa pátria que é a língua portuguesa de mais de duzentos milhões de homens em abraço armilar.

Bem me apetecia ter citado Popper, na necessidade de combate ao totalitarismo e ao historicismo, defendendo, contra a utopia, o gradualismo reformista, o racionalismo crítico, o individualismo metodológico e aquilo que alguns qualificam como utilitarismo negativo, isto é, que os governos não devem ter como objectivo o aumento da felicidade global, mas antes a redução do sofrimento conhecido.

Porque a mente não é uma tabula rasa, dado sermos memória biológico-cultural, marcados por problemas, isto é, por expectativas desiludidas, esses pedaços de memória que se chocam com outras expectativas e com alguns pedaços de realidade. E o que nós pesquisamos é a solução dos problemas, coisa que só poderemos enfrentar pela imaginação criadora de hipóteses e conjecturas, sendo urgente a criação de ideias novas e boas, onde as hipóteses, como tentativas de solução, devem ser provadas. Mas, por mais confirmações que uma teoria possa obter, ela nunca será certa e quanto mais depressa encontrarmos um erro, mais cedo o poderemos eliminar.

Porque eu posso ser conservador nos valores essenciais, reformista nas metodologias e revolucionário nos objectivos, bem pouco neolib e nada neocon, para que fora de nós não fique um único deus. Os portugueses que, comandados por um “Conselho Conservador“, que era maçónico e tudo, enfrentaram os invasores napoleónicos, sempre se souberam reinventar pelas mudanças e, ainda recentemente, passámos, em menos de uma geração, do último império colonial europeu para a plena integração europeia. Tal como fomos precursores na revolução liberal, nas abolições da escravatura e da pena de morte ou na “third wave” da democracia, fugindo à vacina com que Kissinger nos antevia como a repetição de Kerensky.

Por mim, conservador à maneira de Alexandre Herculano, Fernando Pessoa ou Agostinho da Silva, com eles me irmano a Edmund Burke, a José Ortega y Gasset e a Winston Churchill, em termos de concepção do mundo e da vida. Continuo liberal liberdadeiro, porque, como dizia Raul Proença, o verdadeiro liberal não diz isto é verdade, mas sim que sou levado a pensar que nas circunstâncias actuais este ponto de vista é provavelmente o melhor. Continuo a temer, como o conservador Herculano, todos os prólogos ao cesarismo que querem o homem em molécula e repugna-me ver o homem apoucado, quase anulado diante da sociedade.

Sou tão conservador que até quero conservar a nossa tradição liberal e apetecia dizer aqui o que proclamou Domenico Fisichella em Itália: o nosso património è intessuto di quella cultura nazionale che ci fa essere comunque figli di Dante e di Machiavelli, di Rosmini e di Gioberti, di Mazzini e di Corradini, di Croce, di Gentile e anche di Gramsci. Porque, glosando Manuel Alegre, todos somos filhos de monárquicos sem rei e de republicanos sem república. Mas ainda sonhamos.

Apenas advogo, como Feyerabend, um relativismo à maneira de Protágoras, considerando que o libertador de ontem se pode tornar no tirano de amanhã: não há nada na ciência ou em qualquer outra ideologia que as torne intrinsecamente libertadoras. As ideologias podem deteriorar-se e tornar-se religiões dogmáticas (como, por exemplo, o marxismo). Elas começam a deteriorar-se quando conquistam sucesso e se transformam em dogmas no momento em que a oposição é esmagada e o seu triunfo se transforma na sua ruína.

Aliás, hoje, rememorando o 31 de Janeiro de 1891, eu, como monárquico sem rei, quero homenagear Basílio Teles e Sampaio Bruno, esses republicanos que nunca tiveram república, mestres dessa revolução, coisa enorme e nada. Porque durante todo o dia que durou a revolução de 31 de Janeiro, um caldeireiro trabalhou na sua oficina fazendo sem cessar a pancada do seu martelo e, sem por um momento só, levantar os olhos para o céu, para o ar, para a vida: as revoluções que não conseguem fazer parar um martelo que bate numa caldeira de cobre, não conseguem fazer parar forças sociais de muito mais imperiosa função, porque revolução é uma coisa enorme e afinal não é nada (João Chagas).

Ainda temos a consistência das alforrecas: esta crise com efeito veio provar que Portugal pede um tirano; mas a nossa desgraçada pátria nem tiranos tem. Tudo é papas. Temos a consistência das alforrecas… O ministério que, parece, vingará, é uma espécie de tambor que todos vão malhar à vontade e que será esmagado miseravelmente (Joaquim Pedro de Oliveira Martins, em 9 de Fevereiro de 1891).

posted by JAM
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