Escola de Ciência Política


Escolas públicas … espelhos sociais!?
Dezembro 12, 2006, 1:29 am
Filed under: Nos Horizontes da Academia
Sistema de ensino português discrimina alunos
Marta Rangel 2006-12-11

O sistema de ensino português agrava a desigualdade social, discriminando os alunos por escolas, turmas e vias de ensino. A conclusão é de vários estudos apresentados pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

No âmbito do Fórum de Pesquisa CIES 2006 (Centro de Investigação e Estudos de Sociologia), este ano dedicado às temáticas da “Sociedade do Conhecimento, Jovens e Educação”, investigadores do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) apresentaram os resultados mais relevantes da investigação feita nesta área nos últimos anos.
Nas suas pesquisas, os investigadores identificaram aspectos que consideram contribuir para o aumento da “guetização” social como a divisão dos alunos por turmas segundo o desempenho escolar e a origem social, assim como a selecção dos alunos para uma determinada escola com base nestes mesmos critérios.
No estudo “Políticas de Educação Básica, Desigualdades Sociais e Trajectórias Escolares”, realizado durante o ano passado, foram analisadas quatro escolas públicas que apresentavam grandes diferenças a nível da origem social e desempenho escolar dos alunos e da qualidade dos equipamentos, apesar de estarem situadas a pouca distância umas das outras (na zona norte de Lisboa, entre o Lumiar, Carnide e Telheiras).
Numa das escolas do 2.º e 3.º ciclos analisadas, os estudantes pertencem, sobretudo, a classes sociais elevadas, apresentam um bom desempenho escolar e usufruem de equipamentos novos. Em contrapartida, na outra escola, quase todos os alunos são oriundos de classes sociais desfavorecidas, têm altas taxas de reprovação e dispõem de equipamentos escolares em mau estado.
Na primeira escola, apenas 7% dos alunos chumbaram mais do que uma vez, enquanto na segunda, 49% dos estudantes já tinham repetido o ano várias vezes. Quanto aos que nunca chumbaram, na primeira escola chegam aos 82%, enquanto na segunda são, apenas, 33%.
“Sendo todas públicas e situadas na mesma zona, há escolas de elite e outras de crianças quase marginalizadas. Toda a gente quer pôr os filhos nas escolas com melhores alunos e essas acabam por ter mais candidatos do que vagas, o que lhes permite seleccionar os estudantes e excluir os repetentes ou os provenientes de um bairro social, por exemplo”, esclareceu Pedro Abrantes, um dos investigadores responsáveis do painel “Diversidade e Desigualdade nas Escolas”, em declarações à agência Lusa.
Outra pesquisa realizada em 2001 analisou a constituição de turmas na mesma escola, situada num bairro desfavorecido no concelho da Amadora, e identificou os mesmos factores de desigualdade. Alunos provenientes da classe média com bons percursos escolares eram todos agrupados nas mesmas turmas, enquanto as outras turmas eram constituídas por estudantes oriundos de um bairro social e com um fraco desempenho escolar.
“Até aos anos 70/80 a maioria dos jovens não frequentava a escola a partir do 1.º ciclo, à excepção dos pertencentes a classes sociais elevadas. Hoje a escola pública acolhe todos, mas de forma muito diferenciada”, frisou o investigador, referindo que “os estudos apontam claramente para uma evolução da ‘exclusão da escola’ para a ‘exclusão na escola'”.
Segundo as pesquisas, as diferenças na origem social dos alunos deixam de ser significativas no que toca à violência escolar, uma vez que “o fenómeno não ocorre em mais quantidade nas escolas onde existe mais insucesso escolar ou com mais diversidade cultural e étnica”.
“Os estudos relativos a essa matéria ainda não estão terminados, mas permitem já concluir que há factores como a qualidade dos equipamentos e a estabilidade do corpo docente e do conselho executivo que são mais determinantes a nível da violência”, concluiu o responsável do CIES.”
Retirado do Portal da Educação, em 11.12.2006
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